quarta-feira, setembro 22, 2004

Pois é, meu senhor. As coisas não são como parecem. Basta a gente olhar de baixo para cima e tudo muda. É sério. Tem gente estudando isso. Esses doutores da universidade, esse povo que vive com a cara enfiada nos livros. Eu? Não. Eu nunca consegui passar na prova do vestibular. Depois perdi a vontade de estudar. O que fiz? Ah, eu era jovem, tinha umas economias, não gostava da minha cidade e decidi sair pelo mundo.
Passei uns quinze anos viajando por uns três continentes. Sabe aquele filme que passou um dia desses no cinema, aquele do livro, caderno, diário da moto? Então. Não tem aquela parte do deserto que os caras vão caminhando? Eu trabalhei ali pertinho uns cinco meses.
Como, o senhor só assiste jogo de futebol? Ah, mas eu também adoro. Todo domingo vou para um bar ou lanchonete qualquer para ver o campeonato brasileiro. Já foi melhor, sabe? Na Itália eu...sim eu já estive na Itália. Faz muito tempo. Quase que peço a cidadania de lá. Mas briguei com o dono da pizzaria onde trabalhava, quebrei a cara dele e tive de sair fugido do país. Os policiais devem estar me procurando até hoje.
Mas como ia lhe contando...Sim, claro, pode servir mais uma cerveja. Sim, sei que o senhor não tem como ficar só me ouvindo sem vender nada. Me diga, o movimento por aqui é bom? Ah, depende do pagamento do governo para agitar as coisas. Nossa, parece coisa de cidade pequena do interior. Desculpe, não queria ofender o senhor nem a sua cidade. Que legal. O senhor nasceu e se criou aqui, assim como os seus filhos? Poxa, eu não tenho filhos. E da minha família faz uns 18 anos que perdi o contato. De vez em quando ligo para minha mãe para avisar que estou vivo. É verdade. Mãe é uma das melhores coisas do mundo. Bem, não me casei por não encontrar nenhuma mulher que tivesse coragem de me acompanhar nas minhas viagens. Sim, amiguei várias vezes. Teve a Luisa, que era dona de um bar como o senhor. A Matilde era artista, fazia caixinhas de papelão colorido e vendia nas praças. A Joana era professora e escritora. A conheci num coquetel de lançamento de um livro. Tava lá só para filar comida quando começamos a falar sobre música da América Central. Mas eu gostei mesmo foi da Fernanda, balconista de uma farmácia. Adorávamos brincar de doutora e doente.
Mas sabe como é. Tudo se acaba na vida, a estrada chama de novo e a gente tem que seguir os instintos. Acho que eu nasci caminhando, sabe? O que faço aqui? Não, só parei por conta do ônibus. Parece que quebrou uma peça e vamos ficar aqui esta noite. Amanha sigo rumo ao litoral. Dizem que a temporada de pesca tá rendendo um bom dinheiro para quem tem as manhas das redes. É, também fui pescador quando estive no África. Já fiz de tudo na vida para ganhar o dinheiro da passagem do próximo trecho.
Nossa, tá tarde, né? Vou descansar agora naquela pousada da esquina. Não preciso pagar nada? Muito obrigado, senhor. Vou lhe contar mais uma coisa. Quando se chega na minha idade, a gente começa a repensar a história da nossa vida. E eu estou querendo escrever um livro sobre tudo o que vivi. O que o senhor acha?



segunda-feira, setembro 20, 2004

Foi a primeira que viu seu espaço visitado por ela. O que fazia lá, não trabalhava em outro setor da empresa onde raramente havia tempo para visitas sociais? A empresa até que tentava, mas o departamento de Recursos Humanos não era comandado por pessoas capazes o suficiente para implementar uma boa política da excelente vizinhança.
Apertos de mãos, como vai você, como vai o trabalho, nossa que projeto legal, como estamos cansados, vai piorar e outras frases de efeito foram ditas e repetidas. E o diretor do RH ali, supervisionando o intercâmbio entre os setores.
Venha conhecer minha mesa, olha que lindo o meu mouse, pois é não tenho vista para o horizonte, que bacana o teu ar-condicionado, faz um mal para a gripe que você nem imagina, dizia a visita, respondia o visitado.
Pois é vou embora, mas agora que ia te mostrar meu arquivo de piadas, volte sempre que puder, apareça também, falaram os dois, numa tentativa desesperada de retornar aos seus postos de trabalho e de sair do campo de visão da chefia.
E o diretor do RH, ali, explodindo de felicidade com o sucesso de sua política de integração entre os funcionários.

sexta-feira, setembro 17, 2004

Agora que o frio roraimense começa a deslocar-se para outros lugares, nada como uma opinião sobre ele. De Zanny Adairalba, escondida poeta do cotidiano:

Dias frios... cama quentinha, lençóis limpinhos, meia nos pés... (Um computador em algum canto da casa esperando ser usado. Alguém enrolado num cobertor e com uma xícara de chocolate quente à mão, pronto a expor os pensamentos a serem tatuados no universo...) Lápis, papel... letras... frases... histórias...
É... dias frios são deliciosos!!




quarta-feira, setembro 15, 2004

As questões do mundo

Todos os seres humanos cobram, querem ou pedem algo de quem os rodeia. Isso é da sua natureza. Agiotas sempre querem mais juros dos credores. Mães exigem dos filhos boas notas no colégio. Filhos querem ser os preferidos dos pais. O governo não se cansa de cobrar e criar impostos. Países pobres imploram o tempo inteiro por ajuda. Líderes, mesmo que não diretamente, querem ser seguidos. Religiosos, fé. Novos amantes, que se abandonem os antigos. Homens e mulheres, fidelidade de seus parceiros. Já alguns filhos de pais separados conformam-se com o pagamento das consultas do analista. Professores, mesmo que nunca demonstrem, cobram atenção. Sobrinhos pedem presentes. Velhos amantes desejam a permanência do outro no leito. Prostitutas se conformam com um rápido gozo do freguês. Garçons, indelicados como só eles, pedem apenas uma gorjeta e os 10% da conta.
Sogros são mais moderados. Exigem apenas o impossível dos genros e noras. Artistas reclamam se não há palmas no final do espetáculo. Ambientalistas cobram respeito ao meio ambiente. Estudantes são despretensiosos e conformam-se em ser aprovados. Políticos exigem ser votados e reeleitos.
Melhores amigos querem compreensão e aceitação. Os traidores, que nunca sejam descobertos ou julgados. Vendedores cobram de São Pedro que sempre faça sol e nunca chova. Chefes exigem apenas lealdade e sacrifício. Grevistas, aumento salarial. Certas empresas, a concordância com a semi-escravização. Governadores pedem, vez ou outra, trégua à oposição. Caloteiros, não ser enganados. Cineastas pedem aos céus salas de cinema cheias e críticas favoráveis. Oradores, o dom de nunca engasgar.
Deus, até ele, cobra dos seus filhos exclusividade na preferência. Solitários sentem-se felizes quando o mundo lhes dá paz. Já os ninfomaníacos são menos exigentes. Muito sexo, com todo mundo, lhes basta. Esposas e namoradas insatisfeitas cobram orgasmos múltiplos. Mulheres sempre pedem ser tratadas com igualdade e receber salários iguais aos dos homens. Estes, por sua vez, querem dividir a conta do jantar e do cinema. Motoristas querem mais agilidade do governo para resolver o problema dos engarrafamentos. O governo só quer ser esquecido. Animadores de auditório querem ser assistidos. Pregadores, ouvidos. Escritores, inspiração.

segunda-feira, setembro 13, 2004

Meio-dia e meia

No restaurante, Aurélio come apressadamente. Tem de voltar à empresa para acelerar a entrega de um relatório de atividades e começar a escrever um projeto. Entre uma garfada e outra, pensa nas paisagens que viu numa revista de viagens. Como ele gostaria fazer os passeios que os jornalistas descrevem. Mas Aurélio não tem dinheiro suficiente para viajar. Além disso, a pensão das duas filhas leva boa parte de seu salário. Sua única opção de lazer fora da rota casa-trabalho é a banca de revistas do tio, que o deixa folhear as novas edições.
A um quilômetro, Fátima prepara-se para sair dos braços do namorado. Quase esquecia do almoço de família marcado para hoje. Se não bastasse estar um pouco atrasada, nunca aprendeu a maquiar-se em motéis. Para ela, as luzes nunca estão bem posicionadas. Certa vez perguntou a um empreiteiro se iluminação era item menor nestes projetos. Depois do último beijo, sai do quarto e vai para o restaurante. Pelo celular, avisa ao marido que está chegando e culpa o trânsito pelo atraso.
No banco de uma praça, Nina e Mateus terminam as anotações do diário de viagem. Já são 15 estados visitados desde que caíram na estrada. Ainda têm duas semanas para viajar. Calculam que dará tempo para chegar na estréia do grupo teatral dos amigos. A viagem os ajudou a ficar mais próximos, acreditam. As anotações serão fundamentais na redação de vários artigos para o jornal de sua cidade natal e, quem sabe, de um livro. Agora, porém, é hora de comer, não de sonhar.
Na calçada do restaurante, Aurélio espera o carro que vai levá-lo para o trabalho quando vê Fátima chegar. "Essa aí deve ter tudo o que quer, sem precisar preocupar-se com horários. Que inveja", pensa.
Fátima passa sem notá-lo, questionando-se se vale a pena ficar sem tempo para si, ocupada com o marido, a casa, o namorado e a gerência da loja de roupas. "Acho que chegou a hora de pensar em mim. Vou fazer como esses garotos, que não têm tanta responsabilidade e são felizes".
Nina e Mateus, parados em frente ao restaurante, contam o dinheiro para saber se poderão almoçar hoje. Dá para encarar o preço. Vamos almoçar, decidem.
Enquanto isso, novas histórias procuram o seu espaço nas mesas do restaurante.

sexta-feira, setembro 10, 2004

Certeza

Todo amor acaba
E aquilo que em tudo te atrai
Uma manhã qualquer só te distrai.

quarta-feira, setembro 08, 2004

A debutante

A Universidade Federal de Roraima comemora 15 anos nesta semana. Lá se vão oito anos desde que entrei pela primeira vez numa sala do Campus do Paricarana para estudar Jornalismo.
Mas o primeiro contato com a UFRR foi mesmo em 1993, quando fui professor, por algumas semanas, de um projeto de alfabetização de adultos desenvolvido pela instituição. Nunca ficou bem claro se tinha direito a receber algum trocado. Na dúvida, deixei de lado.
Depois de formado, fui professor durante um semestre, lecionando três disciplinas. Na sala, antigos colegas e uma pirralhada hoje quase toda graduada.
Para manter a mente na ativa enquanto não penso num projeto legal de pós, voltei à UFRR como aluno de Sociologia. (estou no aguardo de uma lei que me permita ser presidente da república. Afinal, se o FHC pôde, eu também quero. Pelo menos de sindicato).
Na universidade, ganhei amigos, conquistei desafetos, tive amores de todos os tipos, fiz política estudantil, ajudei a fazer protestos e organizar eventos culturais. Também percebi um misto de vergonha e senso de justiça nos olhos dos alunos e professores quando o Governo Federal enviou interventores para assumir o lugar de reitores suspeitos de cometer irregularidades ou quando vestibulares foram cancelados por confirmação de fraude.
Participei de duas eleições para a escolha de reitor; de algumas dezenas de assembléias discentes e docentes; de greves e paralisações. Tive aula com professores bons e medíocres, fui colega de gente aplicada e relaxada, entendi muito sobre a arte de ouvir para aprender.
Graças à universidade, tenho uma profissão (Deus sabe o que seria ou onde estaria hoje sem ela) e me sustento honestamente.
Graças à universidade, compreendo parte do mundo que me rodeia e percebo a dialética como um processo interno que deságua na modificação da realidade.
Em resumo, fiz amor e fiz a guerra na universidade. E se o tempo voltasse, faria tudo de novo, fazendo a balança pender um pouco mais para o amor, claro, que é mais gostoso.

sexta-feira, setembro 03, 2004

Atendendo a pedidos, mais uma da série "Escritos para mulheres especiais."

Perguntas no mar


A manhã surge no convés do navio e
A mesma pergunta de todos os dias é refeita:
Que estranho som é este que nos persegue e enfeitiça,
Que nos prende e libera a seu gosto, canto de sereia invisível?
As ondas, nas quais deslizam barcos aventureiros,
Balançam indiferentes ao nosso esforço e suor.
Somos corsários, piratas, descobridores.
Somos caçadores na terra prometida, habitamos o além-mar.
Navegamos em águas profundas, tememos apenas o horizonte,
Lá onde o oceano termina, lá na casa dos deuses.

O sol ergue-se soberano, acorda os ventos, clareia o céu,
As velas se agitam e nenhum pássaro pousa nos mastros.
Teremos um dia sem tormentas, sem surpresas,
Bem longe de um porto seguro, sem gaivotas para espantar.

O dia termina para novamente a lua reinar suprema
E, de novo, ninguém descobre que canto é este,
Que domina marinheiros sem pátria ou razão
E os impulsiona a conquistar reinos abissais
Respirando com dificuldade e fazendo-os perguntar-se:
Que águas são estas que escorrem pelas nossas mãos?
Que sete mares são estes, agitados e pacíficos,
Neste sul e norte afastados por um ponto cardeal qualquer?


quarta-feira, setembro 01, 2004

Conversas de rua


Rita - E aí, Betânia, tudo bem?
Betânia - Tudo bem o quê, sua traíra?
Rita - Ih, que foi? Que trairagem tu acha que fiz contigo?
Betânia - Tu trairou legal comigo que tô sabendo.
Rita - Fala logo aí.
Betânia - Tô sabendo que tu deu uns pegas no Marcelo.
Rita - Aí, dei mesmo. Qualé então, tu não tem namorado?
Betânia - Tenho, mas tu sabe que o Marcelo é meu marmita. Sacanagem da tua parte.
Rita - Putz, tinha esquecido disso. Quer dizer que tu ainda dá uns pegas nele também?
Betânia - De vez em quando, só pra relaxar.
Rita - Ô, amiga, desculpa. Juro que não faço mais isso.
Betânia - Jura mesmo? Tem que respeitar a carne que os outros comem, pô!
Rita - Juro que sim, amiga.
Betânia - Então tá perdoada. Ei, tu já viu aquele gatinho parado ali perto do poste?
Rita - Mô lindão, né? E aí, vamu dá um chega nele?
Betânia - Só ser for agora!

segunda-feira, agosto 30, 2004

Juliana, a rainha da folia

Como é feito todos os anos, o prefeito da emergente cidade de Santa Rita dos Aparecidos, reeleito e feliz, planeja um carnaval que traga muitas divisas para o município, levantando as economias dos empresários e alegrando os foliões, que esquecem de todas as dívidas, provações, incompetências, filhos, esposas e maridos durante alguns bons e mundanos dias. A primeira providência é escolher um rei e uma rainha. Afinal, assim reza a tradição: um gordo alegre e uma morena faceira e com samba no pé devem receber a chave da cidade.
Nas escolas de samba, agitação é palavra de ordem. Os presidentes encomendam aos olheiros que caprichem no serviço e lhes tragam a mais bela das sambistas, seja ela escolhida entre as meninas da própria escola, seja entre as freqüentadoras dos clubes de pagode. Na escola Avenida da Central, a procura é frenética, afinal está em jogo não apenas a honra conquistada por uma das suas componentes de reinar na folia, mas o bicampeonato carnavalesco.
Cinco morenas são examinadas ao som da bateria. Juliana, cabelos cacheados, lábios carnudos, pernas torneadas, sorriso fácil e cintura-de-mola é a escolhida. Tem pela frente um desafio, pois as outras escolas não deixaram por menos nas indicações.
No dia da escolha, muito nervosismo. Juliana arrebata o título de rainha sem muitos problemas. Samba com alegria e desperta a paixão de vários espectadores, que oscilam entre os galanteios rudes (gostosa, tu é a mulher que mamãe sonhou para mim), os mais ou menos (nossa, namora comigo e te dou minha vida) e os metidos a poeta (tua beleza me desnorteia, linda mulher que flutua enquanto dança).
Mas Juliana não dá bola a ninguém. Ela já tem o seu homem. Isso até descobrir que ele a estava traindo com a rainha da bateria. Aí, enraivecida, promete vingança no meio da folia. Sorte do irmão do rei Momo, um repórter fotográfico escalado pela organização para acompanhá-lhos em todas as festas. Haviam se conhecido durante a visita que todas as candidatas fizeram ao prefeito. Simpatizaram logo de cara. Na primeira noite de carnaval, fuga dupla para uma praia do rio Piná. Vinho, queijo, beijos... Assim correu o mundo até a quarta-feira de cinzas, quando as obrigações do malvado mundo real separaram os novos amantes e cada um voltou a seus respectivos amores. Do velho carnaval da reeleição, sobraram apenas lembranças, uma fotografia e silêncio sobre o romance. Mas eles, lá no fundo, esperam ansiosos pela micareta, onde velhas paixões costumam esquecer tudo durante mundanas horas.

(Publicado originalmente no carnaval de 2001, no extinto semanário A Tribuna do Estado de Roraima)

quinta-feira, agosto 26, 2004

Investigación de primer mundo

En la plaza Bolívar, de Guasipati. De repente, se para el carro de la policia y se bajan los agentes, pistolas en puño, apuntando a los tres jovenes. 
 
- ¡Manos p´árriba! 
- Que pasó? 
- ¡Manos p´arriba, péguense a la pared! ¡Documentos!
 - Aquí están, pero que pasa, señor policía? 
- De quien es aquel carro? - Que carro? - Aquel que está parao en la esquina. 
- No sabemos.
 - Como no sabem? No es de ustedes? Ustedes no estaban en la esquina? 
- Si, pero ni lo habíamos visto. 
- Dónde tu vives? 
- En la Vuelta Del Diablo... 
- Nunca te vi por aqui. Tu vives aquí mismo?
- Si. - Y tu? Vives aquí también? 
- Si. 
- Bueno, súbanse los tres al carro ahora. 
- Pero por qué? 
- Coño, súbanse. ¡Los estoy mandando! 
- Pero por qué? 
- ¡Que te subas,chico! 

 (Os policiais continuam apontando suas armas enquanto todos entram no camburão. Seis quadras depois, na delegacia, o comandante fala com eles) 

 - O sea, que ninguno de ustedes es el dueño del carro?
 - No, señor, nosotros no tenemos carro.
 - Y que hacían paraos en la esquina de la plaza? 
- Hablando... - Y qué, no trabajan? - Somos estudiantes. 
- Ah, OK, estudiantes. 
- Y por qué nos trajeron? 
- Es que un tipo amenazó de muerte a un señor y estaba vestio como ustedes, con una camisa azul, una gorra como la tuya y un blue jeans. 
- Pero no somos nosotros, señor. 
- Bueno, es que ustedes eran sospechosos. Y además, estaban paraos cerca del carro. 

 (entram vários policiais com um homem algemado) 

 - Lo cogimos, comandante. Lo encontramos cerca de la plaza. 
- Bueno, muchachos, ahora que probamos que ustedes no amenazaron a nadie, pueden irse. Compórtense bien, OK? Y no se pongan así. Ustedes saben que ese es el trabajo de la policía. Váyanse tranquilos.

terça-feira, agosto 24, 2004

Um coral formado por120 crianças de 6 a 14 anos apresentando-se no parlatório da Universidade Federal de Roraima durante o V Painel Internacional de Regência Coral é algo comum, esperado até, tendo em vista o tipo de evento.
Mas o coral, bem afinado e levemente nervoso na que foi sua primeira apresentação, é especial. Para começar, apresenta suas músicas em dois idiomas. Os ensaios, apenas nos finais de semana, são feitos nas aldeias indígenas Tabalascada, Malacacheta e Canauanim, a mais de 20 quilômetros de asfalto, piçarra e muita lama ou poeira, de acordo com a época do ano, de Boa Vista.
Além disso, o regente do coral e seus alunos têm em comum algo mais do que o gosto pela música. Todos são wapixana, uma das etnias historicamente vítimas do que parte da sociedade roraimense costuma chamar de convivência harmoniosa entre índios e não-índios (Por convivência harmoniosa, entenda-se uma relação de subalternidade na qual a força do branco predomina).
Cristino Pereira dos Santos é o responsável pelo coral, nascido a partir de uma ação autônoma que ele chamou de Projeto Canto Indígena. Há seis meses, todos os sábados ele deixa Boa Vista para ir ao município do Cantá e ensinar música às crianças. O professor conta que a ansiedade de alguns alunos é tanta que vários começam a rondar o salão de aula uma hora antes das lições começarem, às 8h.
Os frutos começam a ser colhidos. Na estréia, o coral apresentou canções próprias e cantos tradicionais na língua materna e em português. Vestidos com saias de palha, com acompanhamento de um violão e de um violino, o coral já tem sua solista, uma chimeba (menina) que se apresentou apenas com a palha de buriti e tinta de urucum cobrindo seu corpo.
A cantoria em língua nativa, além da preservação de sua cultura, representa um trabalho de valorização da auto-estima dos indígenas. Quando algumas famílias migram para as áreas urbanas, os mais novos costumam negligenciar a herança que carregam em troca de uma integração mais rápida com a nova sociedade da qual fazem parte.
Até o final de ano, conta Cristino, o projeto deve ampliar seu alcance, consolidando o coral, um grupo de violonistas e um grupo de composição musical. Tudo isso tendo como única ajuda oficial 20 litros de gasolina mensais doados pela Funai (Fundação Nacional do Índio).
Segundo o professor, seu trabalho é motivado por ter consciência que "a cultura muda a mentalidade das pessoas e que o governo não dá isso porque assim consegue controlar a gente". Uma platéia formada em parte pelos filhos da própria sociedade que ignora as necessidades dos indígenas, em parte por pessoas sensíveis à causa destes povos, além dos pais das crianças e alunos do louvável projeto de licenciatura Insikiram, mantido pela UFRR, aplaudiu a disposição do professor e seus alunos em demonstrar que 500 anos de sofrimento e exclusão é um tempo insuficiente para acabar com o orgulho de ser índio.


sexta-feira, agosto 20, 2004

13 de fevereiro de um ano qualquer da minha juventude.
Depois de seis dias afastado de computadores, celulares e tudo o que é movido a energia elétrica, retorno do Monte Roraima, a casa de Macunaíma, deus-pai dos índios Pemón e Macuxi, marco da tríplice fronteira entre o Brasil, a Venezuela e a Guiana.
Em Pacaraima, enquanto espero um sanduíche de queijo e um guaraná, meus olhos são atraídos por uma janela multicolorida que brilha e tem pessoas dentro dela. Após cinco segundos, processo a informação: a janela é uma televisão. E eu, que reconheço canais pela marca nos cantos da tela, demoro a reconhecer a logo da Band.
A experiência, muito mais que alguns semestres cursando Antropologia e Sociologia, me ajuda a entender a expressão de medo e fascinação de meus primos índios quando chegam às cidades dos brancos.


quarta-feira, agosto 18, 2004

Da série "escritos para mulheres especiais"

Difícil conquista

Foi olho no olho, primeira impressão
Alucinei, te ofereci a galáxia.
Você riu, balançou a cabeça
Me chamou de exagerado,
Pediu que fosse com calma.

Não te ouvia, fui em frente
Sem desistir, trouxe a Via Láctea.
Você disse "ai, meu Deus,
Lá vens tu de novo" e me
Falou de paz na alma.

Mané paz o quê, juntei num pacote
universo, Via Láctea, a lua, rosas e mil estrelas.
Você fez bico, olhou para o lado,
Explicou: estava ocupada, era quinta-feira
Mandou voltar em ano menos tumultuado.

Na insistência, cabeça-dura, apaixonado
Pedi ajuda ao Papa, ao presidente, ao chefe da polícia.
E você, sem dar atenção aos meus cartazes na rua,
Contando preferir revistas e jornais,
Mandou arrancar a faixa onde escrevi "minha alma é tua."

Cansado, desiludido, mas persistente
Joguei uma última e desesperada carta na mesa
Contratei um carro com alto-falantes
Recitei um poema publicado na seção de variedades.
Preso por desordem, passei dois dias atrás das grades.

Conformado, passei um e-mail
Declarando derrota e retirada total do time de campo,
Reclusão, esquecimento, apesar de toda a dor.
Agora é você quem manda flores, me acossa,
Perturba no trabalho, manda cartas de amor.

E eu aqui, quieto, sem entender nada,
Perguntando se sou louco ou complicado
Se é normal tal situação absurda,
Na qual o apaixonado luta contra sol para conquistá-lo,
Perde a guerra e leva o troféu de primeiro colocado.

segunda-feira, agosto 16, 2004

Cena
Domingo, 12 horas, quarto escuro apesar da janela aberta, a chuva molhando as plantas, vento frio e Come Rain or Come Shine num dueto de B.B. King e Eric Clapton. O que mais pedir?

sexta-feira, agosto 13, 2004

Há dias em que Boa Vista ganha ares de cidade grande. Nessas horas, fica até difícil saber o que fazer. Nesta semana, por exemplo, o Sesc promoveu uma oficina de cinema para professores, adolescentes e crianças. A Universidade Federal de Roraima também fez uma oficina de cinema com exibição de filmes espanhóis.
Na sexta-feira 13, às 19h30, o Sesc promove um Café com Letras com o tema Cinema e Literatura. No mesmo horário, tem exibição e debate sobre o filme Tudo sobre minha mãe, de Pedro Almodóvar, no auditório da UFRR.
Ainda na sexta, rola show no Sesc com o George Farias e Eliakin Rufino, a turma do reggae na floresta. Na Universidade, o DCE realiza a Festa da Calourada, com rock e forró (afinal, estamos no Norte).
Em Boa Vista, a capital mais setentrional, há dias em que tudo acontece ao mesmo tempo. Mas há muitos outros em que a pasmaceira é geral.
Já na Venezuela as coisas não param. Finalmente chegou o 15A, a sigla do 15 de Agosto, data em que as facções governistas (os oficialistas) e a oposição (os esquálidos), ambas alegando defender a democracia, a dignidade e a prosperidade do povo venezuelano, vão se enfrentar (novamente) nas urnas para decidir se Hugo Frias Chávez deixa ou não a presidência.
E eu ouvindo La Oreja de Van Gogh no máximo

terça-feira, agosto 10, 2004

Mais um final de semana

Esvazio mais uma garrafa de cerveja enquanto meus amigos conversam sobre seus filhos e suas amantes. A tarde está quente e a transmissão do rádio diz que o meu time está perdendo novamente. Amanhã será domingo e com certeza amanhecerei de ressaca. Não sei se é pior a resultante da bebida ou a proveniente do convívio com as pessoas que geralmente se misturam nos finais de semana à fumaça do cigarro da casa de bilhar onde me divirto bebendo, fumando e apostando nos cavalos. Gosto de cavalos. Eles pelo menos algumas vezes me trazem lucro. Quando ganho uma aposta, tomo rum. Se a tarde é boa, arrisco um trago de uísque e compro um pouco de carinho. Tudo para esquecer que logo será segunda e o meu maldito trabalho estará lá, a minha espera, como uma onça espreita a presa.

quinta-feira, agosto 05, 2004

Da série "escritos para mulheres especiais"

Um novo quadro

Era um tempo sem estrelas
Havia vento sem perfume
O rio corria baixinho
Que nem criança assustada
A canção não era forte
E a palavra sem sentido
Alegria tinha aos montes
Escondida num carrinho.

Fez-se o sol, nasceu a chuva
O sorriso apareceu
Jogador guardou as cartas
Foi na rua para passear

É um tempo com estrelas
A brisa corre perfumada
E as águas brincam gritando
Que nem criança desbocada.

quarta-feira, agosto 04, 2004

O governador de Roraima daou no mandato, mas continua despachando. Há quem esteja aparentemente preocupado em como ficará a governabilidade do Estado. Há quem diga que já estava na hora do homem sair. Há quem apenas noticie. E há quem pense em começar a gastar por conta, esperando um suposto retorno de Ottomar Pinto e sua família ao poder.

terça-feira, agosto 03, 2004

Notícia policial

Após pedir um prato de sopa de carne com legumes, o contador Januário Pereira, 32, morreu atropelado ontem, enquanto falava ao celular na calçada do restaurante que freqüentava todos os dias.
Segundo amigos, tinha mania de caminhar e esquecer do seu entorno durante as ligações. Deixa mulher, um casal de filhos, uma coleção de 520 times de futebol de botão, romance extraconjugal sem nome ou endereço para correspondência e uma conta de cinco cervejas no boteco da esquina.