Para participar de uma seleção dos editais da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) tive que atualizar o meu portfólio por estes dias. Daí fui procurar matérias na imprensa roraimense sobre o que faço como escritor e ativista cultural. No meio dos links, achei um que me deixou muito feliz, mesmo sem ter nada a ver com o meu trabalho: uma crônica do escritor Afonso Rodrigues de Oliveira, o mestre Afonso, contando sobre o seu encontro na rua com o meu filho, Edgarzinho.
Peguei o link, mandei num grupo de whatsapp que tenho com Edgarzinho, Lai e Zanny (sua irmã e mamãe) e foi uma emoção só.
Zanny relembrou que conheceu seu Afonso quando ela tinha 21 anos, apenas 3 a mais do que o Edzinho tem hoje.
Da minha parte, sou leitor de suas crônicas na Folha de Boa Vistadesde os meus primeiros anos em Roraima, isso lá na primeira metade dos anos 1990.
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| Reportagem sobre o segundo livro de seu Afonso, institulado "E Deus criou o homem" e ambientado no lavrado de Roraima |
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| Livro de crônicas muito boas, falando da vida de Roraima nos anos 1980 e 1990 |
Lembro da (talvez) primeira vez que nos falamos. Foi em 1998, quando fiz uma matéria sobre seu lado escultor. O texto saiu no extinto jornal Diário de Roraima. Só aí são quase 30 anos de contato constante. Na fase das reuniões do Fórum Permanente de Cultura, lá pelos 2009, 2010, nos víamos toda semana.
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| Em 2021 fiz uma entrevista on-line com seu Afonso para meu projeto Diálogos Literários |
Entre 2013 e 2018 fomos vizinhos de bairro e sempre nos encontrávamos indo ou vindo do supermercado. Ainda um garotinho, Edgarzinho achava que seu Afonso era chamado de mestre por ter algum título de artes marciais. Era algo do tipo:
— Papai, mestre Afonso luta kung-fu?
— Não, filho. Por quê?
— Por que ele é mestre e mestre é quem luta kung-fu.
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| Mestre Afonso, dona Salete (sua esposa), Edgarzinho e eu, em 2023, no supermercado |
Enfim, são muitas histórias. Fiquem agora com o texto da crônica, publicada na versão digital da Folha de Boa Vista no final de junho.
(Eu acho inclusive que a Folha devia selecionar as melhores crônicas de seu Afonso e lançar um livro com o material. O mestre mais do que merece pelos 43 anos escrevendo quase todo dia para eles.)
Voa canarinho, voa
“Quando o pássaro invadiu
A cela cabeça
Todas as ideias
Começaram a voar”.
(Edgar Borges)
Afonso Rodrigues de Oliveira
26/06/2026 05:00
Sempre voei nos pensamentos e tropecei na realidade. Sempre fui um péssimo fisionomista, com dificuldade estonteante para reconhecer as pessoas. Imagine como estou agora, com mais de nove décadas de caminhadas pelas veredas praticamente ínvias da vida.
Você não imagina o vexame que sofro, sempre que alguém me cumprimenta, fala meu nome, e eu fico me perguntando: quem será?
Fico feliz quando alguém que já me conhece, aproxima-se e pergunta:
– Tá me reconhecendo?
Normalmente e raramente, respondo hipocritamente:
– Claro!
Às vezes o alguém fala:
– Tá nada… eu sou Abimael, amigo de velhos tempos.
Normalmente rimos e me sinto muito feliz por ter realmente amigos que me respeitam no que realmente sou. Caso nos encontremos por aí, e eu não o cumprimentar, ou não a cumprimentar, desculpe-me e me ajude, cumprimentando-me e se identificando. Você nem imagina o quanto me sinto feliz com um reencontro.
Caso eu passe por você e não o cumprimentar, não leve isso como um desrespeito, mas como uma falha na memória de um quase caduco. Embora a falha não tenha nada com minha idade já cansada. Recentemente eu ia caminhando pela rua quando um garoto vinha numa bicicleta, em sentido contrário. Quando ele se aproximou de mim, parou, olhou firme e perguntou:
– Está me reconhecendo?
– Não, e desculpe, mas não estou.
– Eu sou filho do Edgar!
– Oi, cara… me desculpe e dê um abraço forte no Edgar. Espero encontrá-lo em breve para um forte abraço.
O garoto sorriu e saiu. Cocei a cabeça e saí pela rua como um tonto e me perguntando quem seria o Edgar.
Eu não conseguia me lembrar de nenhum amigo com o nome de Edgar. E nessas horas passo o dia todo me torturando. E foi o que aconteceu.
Até que no dia seguinte, mexi nos livros, na estante, e me deparei, casualmente, com o livro: “INCERTEZAS NO MEIO DO MUNDO”. Um livro extraordinário do meu amigo extraordinário, Edgar Borges.
Cara, quase desmaiei. Como pode alguém não se lembrar de um amigo como o Edgar.
Sentei-me ali e fique pensando em como levar esse papo para o mundo que me faz feliz, que é o universo de amigos que tenho e prezo. Vai aqui, um abraço-quebra-costelas, para o casal que guardo no fundo do coração: Edgar Borges e Zanny Adairalba, e seu filho Edgarzinho.
Amizades que me fazem feliz, desde os tempos em que nos conhecemos com respeito, amor e muita consideração.
Um abração a todas as pessoas que conheço e às vezes encontro dificuldade em reconhecer. E tudo por conta, não de desprezo, mas de falta de memória à altura da amizade.
Pense nisso.
afonso_rr@hotmail.com
99121-1460







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